quarta-feira, 14 de abril de 2010

Participou.

O primeiro estalo aconteceu num dia morno. Cinema. Final de semana reprogramado. Idéias de última hora quase sempre trazem algum efeito colateral: 4 horas esperando o filme começar.

“Festa estranha com gente esquisita, eu não tô legal” definia-me muito bem naquele sábado, há tantas horas no shopping. Andei muitas vitrines. Boa parte do tempo foi “gasto” na livraria. Mais um dia de sensibilidade à flor da pele. Desses que você fica atento às pessoas a sua volta, as observa e fica imaginando como são suas vidas.

A mãe lendo pra filha na área infantil dos livros. Duas amigas, de uniformes iguais, conversando no corredor. Casais de mãos dadas e caras fechadas. Famílias inteiras almoçando juntas. Feição dos atendentes na praça de alimentação. Pessoas andando e falando ao celular.

Eu queria descansar. Sentar o corpo e os pensamentos. Um banco aqui, outro ali… Mas nenhum parecia vazio o suficiente para acomodar uma mente tão cheia.

Alguns minutos depois, entregue ao cansaço e já acomodada, estava a observar novamente. Observo o tempo inteiro, o inteiro do tempo. Tão comum que às vezes lembro que esqueço que assim estou sempre.

O banco mirava uma área recreativa. Crianças brincando, essa era a paisagem. 2 minutos de transe (quando você foca o olhar em um ponto e desliga do mundo) foram suficientes para perceber que mais calma ficara. A infância fascina e me faz bem. Busco esse clima sempre, sem consciência.

Um autodevaneio: sentir o mundo e aproveitar dele o que pode me tornar uma pessoa melhor. Autoanálise: buscar incansavelmente entender todas as minhas sensações e posturas. Às vezes, ser eu, me deixa exausta.

A pensar esse enredo permaneci sentada. Veio então a vontade costumeira de partilhar. Pelo menos era assim que eu nomeava até hoje, quando finalmente entendi essa ação.

Celular na mão. Enviar mensagem de texto? Frases desconexas juntas que, de tão subjetivas, saem quase incompreensíveis. Quase, pois quem recebe entende como quem envia. Espelho.

Embora possa parecer pra frentex, sinto, contrariando o título do livro, a insustentável dureza do ser. Diariamente. E assim também é nossa troca de reflexos, diária. Assiduidade que tornou o exercício necessário e que medo (!) tenho eu, aquariana, dessa palavra: necessária.

O segundo estalo aconteceu num dia quente, em que vivi algo denso demais. E no auge desse demais foi com o Espelho que eu escolhi conversar. E a mim não importa se haverá co-respondência. A certeza que busco ao espelho olhar é a certeza de ser compreendida. E foi aí que eu entendi, não é partilha. É, mais uma vez, sublimação. Saber e sentir que alguém, em algum lugar, sente como eu as peripécias do mundo, amortece o impacto que em mim elas causam. Sublimar também pode ser entendido, portanto, como buscar um conforto.

Um comentário:

  1. Álguem anda sentindo-se só por ae... esse exercício de incessante observar, o olhar que se perde enquanto a mente vai a mil por hora, esse movimento quase angustiante de olhar e reparar nas pessoas à sua volta e no que fazem (e com quem fazem, pois parece sempre haver um "com quem")...

    Me pego em situações similares com extrema frequência.

    Afinal de contas... é partilhar ou sublimar?

    Do jeito que as coisas estão postas, parece mais sublimar mesmo. Quando nos sentimos completos, mesmo q momentaneamente, parece não acontecer de nos sentirmos assaltados por tantos devaneios. Simplesmente vivemos os momentos, sem tempo de pensa-los. Se não os vivemos... seguimos a deseja-los e a nos martirizar por sua falta.

    Esse parece ser o habitat dos devaneios, da melancolia.

    Sentir-se ouvido e compreendido deriva de uma partilha... a do coração... partilha que podemos experimentar numa simples conversa com aquele melhor amigo (aos prantos, quem sabe) ou junto de todos os melhores amigos, movidos a álcool e risadas. Mas o resultado que almejamos se parece mais com o conforto que sentimos substituir o vazio que havia antes. Ops... sublimação!

    Seres incompletos que somos... haverá modo de viver diferente desse?

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